Club Atlhetico Paulistano - Remo
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A receita simples de Mike Teti
José Luiz Emerim*

Além de conversar com Jürgen Groebler, técnico do quatro-sem inglês de Pinsent-Foster-Redgrave-Cracknell, campeão olímpico de 2000, havia outro nome importantha lista em Princeton, durante a primeira regata de Copa do Mundo de Remo de 2001: Mike Teti. Em 1996, como técnico-auxiliar, o oito por ele treinado venceu a Nations Cup e o seu quatro-sem peso-leve ganhou o bronze nos Jogos de Atlanta. A sua estreia como técnico e na minda seleção masculina de palamenta simples dos Estados Unidos foi arrasadora, com três títulos mundiais seguidos no oito (1997-98-99). Eu queria saber qual era a receita do sucesso instantâneo. Descobri, acima de tudo, um homem com um enorme senso prático.

Teti é uma legenda do remo nos Estados Unidos. Como remador, foi campeão mundial de oito em 1987, conquistando ainda o bronze no Mundial de 1985 e na Olimpíada de Seul (1988), além de 24 títulos nacionais. No décimo aniversário do título mundial, a guarnição reuniu-se para disputar, e vencer, a regata Head of the Charles na faixa etária. Desde então, o encontro anual virou uma tradição, bem como as vitórias. Aos 45 anos – nasceu em 20 de setembro de 1956 – Teti mantém-se com forma física de campeão. Ainda treina diariamente com grande intensidade, como toda a delegação brasileira em Princeton teve a oportunidade de ver. "Quando estou bem, faço 6min10s em 2.000 m no remoergômetro. Quando estou mal, fico só em 6min20s", conta o campeão.

Como atleta, Teti tem a fama de "nunca entregar, ir até a morte". E é esta característica que ele mais procura em seus remadores: a capacidade de lutar estoicamente pela medalha. Acima até do refinamento técnico, ele garimpa homens destemidos, motivados, capazes de imensuráveis sacrifícios para chegar ao degrau mais alto do pódio.

Os seus métodos de seleção provocam polêmica. Mais do que os números no remoergômetro, ele avalia o empenho do atleta para chegar àquele resultado. Certa vez, o técnico de uma universidade enviou-lhe o seu melhor remador para tentar uma vaga na seleção. O rapaz cravou 6min3s, resultado excelente para pré-seleção, mas não para Teti. Em sua opinião, com mais empenho, o candidato "poderia ter rendido mais".

CURIOSO SOBRE O BRASIL
Criticado por alguns pelos seus métodos de seleção, mas aclamado pela maioria, os seus três campeonatos mundiais seguidos no oito são um cartão de visita incontestável, que valeram-lhe três títulos também consecutivos de Técnico Masculino de Remo do Ano concedidos pela US Rowing. Antes de chegar à seleção, Teti acumulou seis títulos regionais em sete temporadas pela Temple University, onde iniciou em 1982, mais cinco títulos nacionais na categoria estreante pela Universidade de Princeton, que contratou-o em 1989.

Porém, como ninguém está imune a erros, e ele admite isto, há situações em que a decisão passa por momentos nebulosos. Foi assim nos Jogos Olímpicos de Sydney. O oito masculino dos EUA era o favorito à medalha de ouro. Semanas antes da Olimpíada, o contra-proa sofreu uma lesão nas costas. Bastaria um tratamento de alguns dias e ele estaria bom novamente. Mas Teti substitui-o definitivamente por outro atleta. No entender da guarnição, o barco piorou um pouco com a modificação. Todavia, para o técnico, o substituto era mais aguerrido, embora inferior tecnicamente. Teti apostou errado, na opinião de alguns. O oito favorito ficou em quinto lugar. Impossível saber se o resultado seria diferente tivesse ele mantido o atleta original.

Para conhecer melhor o homem por trás do mito, fui conversar com Mike Teti. Tal como Jürgen Groebler, ele mostrou-se afável, solícito e bastante intrigado com a falta de resultados do remo brasileiro. Nos Estados Unidos, muitos ainda lembram da bela atuação do Brasil nos Jogos Pan-Americanos de 1971, em Cali, na Colômbia, onde vencemos o dois-com, o double-skiff e o quatro-sem. Isto num tempo em que os EUA e o Canadá ainda enviavam a equipe A para os Pan-Am, algo que deixaram de fazer, com raras exceções, há quase vinte anos.

Nem Teti, nem Groebler, ou outros que entrevistaria mais tarde, entendem como um país com 165 milhões de habitantes só chegou a uma final de Mundial (double-skiff, 6º lugar, Dinamarca, 1971, com Edgard Gijsen e Harry Edmund Klein) e a uma final olímpica (dois-com, 4º lugar, Los Angeles, 1984, com Válter Hime Pinheiro Soares, Angelo Roso Neto e Nílton da Silva Alonço no timão). Antes das entrevistas, tive de responder várias perguntas sobre o remo brasileiro. Mas soube que Teti tem planos de visitar o Rio de Janeiro com a esposa, Kay Worthington, ex-remadora da seleção canadense.

Com diversos compromissos, especialmente pelo fato da Copa do Mundo estar sendo disputada na sua cidade, Teti estava com a agenda lotada. Finalmente, consegui sentá-lo num fim de tarde para conversarmos, com a companhia do Wílson Reeberg. O seu telefone celular tocou várias vezes. Ele havia aceito o convite para jantar com um grupo de amigos, mas empolgou-se com a entrevista e saiu 30 min atrasado para o compromisso. Não sem antes avisar pelo celular que conversava "com amigos do Brasil". Muito à vontade, Mike Teti não se intimidou com o sereno ou o frio das margens do Lago Mercer. Falou até a noite cobrir densamente a paisagem e sermos apenas três vultos no gramado. Sempre com a testa franzida na diagonal, caída para boreste, e a voz firme e pausada, meio professoral, as suas marcas registradas. Eis a entrevista, uma radiografia detalhada do remo dos Estados Unidos:

Como vai o trabalho para Atenas?

Temos a sorte de possuir um remo universitário altamente competitivo. Isto garante um fluxo constante de novos talentos. Como prova disto, fomos medalhistas nos quatro últimos mundiais sub-23. Nosso quatro-com e dois-com, com atletas novos, foram medalhistas no Mundial de 2000. Isto indica renovação.

A maioria dos remadores de Sydney parou ou resolveu descansar em 2001. Mas temos gente nova para tomar o lugar deles. Não com o mesmo talento, mas certamente estamos melhores do que no ano pós-olímpico de 1997. Inclusive na palamenta dupla, o nosso ponto fraco. Para Atenas, nesse momento, acredito que teremos um oito, um quatro-sem e um four-skiff competitivos. Possivelmente também um bom quatro-sem peso-leve.

Quantos remadores do oito masculino de Sydney ainda estão ativos?

Dois, os mais guerreiros. Três do quatro-sem também continuam. O dois-sem medalha de prata está de volta, mas não treina comigo. Selecionei sete novos remadores universitários para o oito. Os mais experientes devem ir para os barcos menores. Foi isto que fizemos em 1997 e 1998. Tínhamos cinco universitários no oito campeão mundial com idades entre 18 e 21 anos.

Aqui, o oito é uma opção natural para os mais jovens, porque estão acostumados com ele. É o barco mais usado em competições universitárias e escolares. Aliás, eles nem querem remar em barcos menores. É uma coisa cultural. Acostumaram-se com o espírito de equipe e a camaradagem. Só com o tempo faço a transição para os barcos menores.

Por que a decisão de criar um centro de treinamento na garagem da Universidade de Princeton, em vez de usar os centros olímpicos, como Chula Vista?

Por várias razões. Primeiro, porque o Lago Carnegie oferece água calma o ano todo. A estrutura de apoio da universidade, como vocês viram, é fabulosa. Segundo, todos os nossos atletas ou estudam ou trabalham em tempo integral. E a região de Princeton é excelente para obter bons empregos, porque grandes corporações têm a sua sede aqui. A maioria dos nossos remadores está empregada nelas, com a vantagem de ficarem localizadas num raio de 10-15 min da garagem.

É preciso entender que a nossa maior competição não vem dos alemães, ingleses ou romenos, mas de Wall Street, das universidades e das grandes corporações. Chula Vista oferece excelentes acomodações e condições de treinamento, mas não há bons empregos na redondeza. Todos os nossos atletas tem um ou dois diplomas universitários. Depois de tanto empenho acadêmico, eles querem iniciar a vida profissional, usar aquilo que estudaram. Então procuramos criar um equilíbrio, em que eles possam trabalhar e remar. Por causa disto, com toda a sinceridade, duvido que haja algum país onde o remo é levado a sério que treine menos do que nós.

Explique melhor...

No inverno e no início da primavera, realizamos um total de cinco a sete treinos por semana. Depois passamos para nove a dez. Nunca, e eu friso nunca, remamos mais do que 90 min. Vamos para a água às 7 h e encostamos às 8h30min, porque todos trabalham das 9 h às 17 h. Às 18 h iniciamos uma segunda sessão, que vai até às 19h15min.

De novembro até fevereiro, o lago está congelado. Portanto, por quatro meses remamos só no ergômetro e no tanque. Trabalhamos também com halteres, mas pouco. Considero o treinamento com halteres muito importante, mas temos outras prioridades. Nossos atletas, de um modo geral, são fortes, altamente motivados, dedicados, mas deficientes tecnicamente. Então precisamos investir todo o tempo disponível no aperfeiçoamento técnico deles. No tanque, trabalhamos só a técnica; no remoergômetro, o condicionamento específico. Eu diria que, tipicamente, no inverno realizamos dois treinos semanais no tanque e cinco no remoergômetro.

Se os atletas trabalham ou estudam em tempo integral e treinam, quando descansam?

Boa pergunta. Alguns descansam mais do que outros. Uns são casados, portanto ainda têm compromissos familiares, filhos... Por isto é necessário equilibrar o plano de treinamentos. Não posso apenas dizer: 'Este é o treinamento ideal'. Preciso sempre considerar o fator fadiga pessoal extra-treino, seja da família, seja do emprego. O voga do oito de Sydney, por exemplo, iniciou uma firma de biotecnologia, abriu-a a investidores, trabalhava 14 horas por dia e treinava para a Olimpíada. Por razões como esta, não posso escrever um plano de treinamento. Se noto que estão cansados, até cancelo o treino.

Isto significa que o treino é adaptado diariamente às condições gerais do grupo?

Exatamente. Os princípios gerais do treinamento são aqueles que todos conhecem. Na segunda-feira a intensidade é baixa ou média; na terça, baixa ou média; na quarta, alta; na quinta, média; na sexta, baixa; e no sábado, alta. Basicamente, dois dias de alta intensidade na semana.

O domingo é sempre livre, porque eles precisam de um dia para fazer nada, estar com a família, descansar, estudar, ficar longe dos compromissos, inclusive do remo. Se eu aproveitasse o domingo para treinar duas vezes e desse folga durante a semana, eles ainda teriam o estresse de trabalhar ou estudar. Evidentemente, este método nos traz sucessos e fracassos. E não vencer o oito em Sydney foi um fracasso. Mas o balanço é muito positivo.

Muitos técnicos vem perguntar-me qual a nossa metodologia de treinamento, qual a escola de remada que seguimos, quais os macetes de regulagem dos barcos. Na realidade, nada disto tem a ver com o nosso sucesso. O que fazemos aqui pode até nem dar resultado em outros países, mas funciona para nós. E com isto não quero dizer que é o melhor. A beleza do remo está em atingir bons resultados com diferentes metodologias. Disto eu deduzo que a tarefa principal do técnico é a identificação dos melhores talentos. Portanto, a minha função é encontrar os melhores e criar atrativos para que interessem-se em remar pela equipe nacional.

E como isto é feito?

Criando oportunidades de bons empregos e dando tempo para gastarem com as suas famílias. É importante para eles ter carreiras. Para mim, era diferente. Eu estava feliz se pudesse treinar três vezes por dia, porque tudo o que eu queria na vida era remar. Mas nem todos são assim.

Por exemplo, o contra-voga do oito no próximo sábado foi o voga do oito peso-leve do Mundial. Em 2001, ele deverá competir na classe aberta. Graduado pela Universidade de Michigan, foi o primeiro da turma e queria estudar Medicina. Então eu propus obter-lhe um emprego de pesquisador em biotecnologia e adiar por alguns anos a Escola de Medicina. Ele aceitou porque ama remar. Porém, se eu lhe oferecesse apenas uma vaga no barco, sem emprego, certamente ele não estaria aqui. E muitos outros também são assim.

Quem obtém estes empregos para os remadores?

Em primeiro lugar, eles estão qualificados para tais empregos, porque são jovens brilhantes. Mas a comunidade empresarial está acostumada a empregar atletas. Por exemplo, eu conheço o Michael Bloomberg, dono da Bloomberg Financial Services (e agora prefeito eleito de New York), e um grande amigo dele. Uma das pessoas com quem vou jantar hoje é um renomado neurocirurgião, que também possui muitas amizades importantes. Também sou amigo do dono de uma financeira que orienta os investimentos de grandes empresas. Nenhum deles remou! É uma questão de ter conexões. Quando chegam a Princeton para treinar, os atletas entregam-me os seus currículos e eu aciono os meus contatos. Aí eles orientam: 'Telefona para o fulano, fala com o beltrano'.

Estes são empregos normais, sem privilégios. Um atleta do oito olímpico de Sydney trabalha na Dow Jones e mora a 40 min daqui. Portanto, contando com o trabalho, ele gasta mais de 90 min diariamente só em deslocamento. Esta é uma das razões porque não competimos muito na Europa: nossos remadores trabalham. Como priorizamos o Mundial e a Olimpíada, eles tiram férias neste período.

E como funciona a logística do Centro de Treinamento de Princeton?

Olhem para a Universidade de Princeton. A garagem é magnífica, tudo de primeira classe, barcos, remos e material em profusão. Agora olhem para mim, o técnico da seleção. Possuímos apenas um oito e um dois-sem, ambos doados. Todos os demais barcos são emprestados da universidade e da Vespoli. Anualmente, a Concept II doa-nos dois conjuntos completos de remos. No fim do ano, vendemos os remos usados para arrecadar fundos. Em quatro anos como técnico masculino nunca comprei um barco. A turma da palamenta dupla comprou alguns.

De setembro a junho, eu trabalhava sozinho com toda a equipe masculina de palamenta simples. Só em 2001 passei a ter um assistente remunerado. No verão, os técnicos universitários em férias vêm aqui ajudar voluntariamente. Em 1999, havia 115 atletas sob o meu comando. Então dividimos tarefas. A turma que foi para os Jogos Pan-Americanos ficou com outros técnicos. Os selecionados para o Mundial permaneceram comigo aqui. Não pude ir para o Pan-Am porque tinha trabalho com a equipe principal em Princeton.

Só no verão posso dizer: 'O oito e o quatro-sem ficam aqui comigo. Fulano leva o dois-sem e o dois-com para o Lago Mercer (onde a US Rowing mantém uma pequena garagem própria, próxima a Princeton), beltrano fica com o oito e o quatro-sem peso-leve no Lago Mercer e assim por diante'. No resto do ano, estou quase sozinho com toda a equipe. A solução é misturar os pesos-leves com os outros num mesmo barco e aplicar um treino comum. Só defino as guarnições titulares três semanas antes do embarque para a regata.

Qual é o critério seletivo?

É um processo difícil para nós, porque 60% dos atletas só vêm para cá nas férias de verão. No resto do tempo treinam pelas suas universidades. Isto só nos permite três a quatro semanas para definir a equipe.

O primeiro critério é o remoergômetro. Por quê? Porque qualquer clube ou universidade possui um. Se o atleta for capaz de confirmar 6min5s, ou menos, está convidado para a pré-seleção. Isto indica que ele possui condicionamento físico. A nossa tarefa, então, é aperfeiçoá-lo tecnicamente.

O segundo critério é o entrosamento no barco. Formamos vários conjuntos e vamos testando as combinações. Por exemplo, saímos em dois oitos lado-a-lado verificando o andamento. Então trocamos atletas entre os barcos e testamos para ver se houve melhora, até chegarmos ao que nos parece a melhor formação. Não é uma ciência exata, mas permite uma boa aproximação do ideal, especialmente quando não há muito tempo.

Às vezes é mais empírico ainda. Para a Olimpíada de Atlanta, havia uma vaga no oito e dois candidatos de igual nível. Perguntei a eles: 'O que eu faço?' A resposta foi: "Vamos decidir no cara-ou-coroa". E assim foi feito.

Uau! Que forma maluca de decidir!

É, mas... O que fazer? Não há uma ciência exata para isto e eu cometo erros. Em 1996, com o quatro-sem peso-leve, foi fácil. Eu tinha doze atletas disponíveis para compor o barco. Em abril já sabia quais eram os titulares. No oito, ao contrário, é muito mais difícil. Chega um dia em que é preciso decidir. Eu olho para um atleta que está bem naquele momento e penso que, se eu tivesse mais um mês, ele seria ultrapassado por outro. Mas tenho de levar quem está melhor naquele momento.

Quão importante no processo seletivo é a atitude mental do remador?

É o fator mais importante! Tenho uma regra pessoal: não utilizar atletas de alta manutenção. Isto é, aqueles que num dia dói o ombro, no outro as costas, chegam atrasados, não remam na chuva... Vá a Princeton e observe. A equipe chega às 6h50min e às 7 h o barco está na água remando. Saem da água às 8h30min, tomam banho em dez minutos e caem fora. Não há lero-lero. Faz parte do esquema confiar no outro, não atrasar e ter a atitude mental certa.

Acredito que é mais fácil ensinar a um jovem disciplinado, motivado e valente a remar do que o contrário. Vou às regatas universitárias e observo, pois facilita conhecer os atletas. Por exemplo, o voga atual do oito é muito lutador. Ele tinha 77 kg e era o voga de um oito sem talentos, quinto colocado no Campeonato Nacional. Mas olhei para ele e sabia que era um homem com mentalidade de campeão. Coloquei-o na voga do meu oito e fomos medalha de ouro no Mundial Sub-23 de 1999. E reparem que eu não disse que ele é um excelente remador. Se continuar a remar, será.

Então a atitude mental de campeão é o primeiro critério de seleção?

Quando localizo um selecionável em potencial, a primeira coisa que faço é conversar com o técnico para saber como ele é no dia-a-dia. Também procuro talentos no CRASH-B (Campeonato Mundial de Remoergômetro, realizado anualmente em Boston) e mantemos um programa nacional de testes mensais em remoergômetro de novembro a maio. O teste pode ser em 6 km ou 2 km, tanto faz. O que eu quero ver é se o remador é valente e está bem fisicamente.

Mesmo com homens motivados e valentes, não ter participado das grandes regatas europeias num ano olímpico não atrapalhou? Pergunto isto pelo impacto psicológico que uma competição gigantesca como a Olimpíada tem sobre qualquer um.

De jeito nenhum! Em 1996, o nosso quatro-sem peso-leve era o único barco na final que não havia ido à Europa. Nenhum membro da guarnição sequer havia competido junto ou em alguma regata internacional antes, nem estado na seleção nacional anteriormente. Foi a primeira competição dos quatro juntos. Estrearam na Olimpíada e ganharam o bronze. Todos os barcos dos EUA que foram à Europa tiveram resultados ruins. Teria o quatro-sem peso-leve sido mais rápido se competisse antes na Europa? Difícil dizer.

Com isto, não quero afirmar que remar na Europa seja bom ou ruim. Mas, em 2000, foi a primeira vez na História que todos os nossos barcos masculinos de palamenta simples foram finalistas olímpicos. Exceto pelo oito, fomos muito bem, sem temporada europeia.. Vejam só: da turma que treinou comigo em Princeton, o dois-sem masculino foi prata e o dois-sem feminino bronze na Olimpíada. Os demais chegaram à final em Sydney. No Mundial, vencemos o oito peso-leve, o quatro-com e o dois-com. É algo inédito para nós.

Mas tenho uma convicção: se não tivéssemos de levar um quatro-sem a Sydney, venceríamos o oito. Não pude ir com a força máxima. Houve problemas de lesões nas últimas semanas, tive de passar um remador do oito para o quatro-sem a fim de garantir a ida à final e fui forçado a tomar outras duras decisões de última hora. E o balanço, ainda assim, foi positivo. O quatro-sem remou junto alguns meses, eram todos novatos e terminaram em quinto na Olimpíada.

Em 1995, treinei o quatro-com campeão mundial sub-23. Eram dois garotos de 18 anos e dois de 19 anos, todos em sua primeira regata internacional. No ano seguinte, treinei o quatro-sem peso-leve bronze em Atlanta. Em 1997 e 1998, o oito competiu pela primeira vez junto na eliminatória do Mundial e fomos medalha de ouro. Em 1999, vencemos novamente. Todos estes resultados foram obtidos sem competir na Europa.

Porque chegamos em quinto em Sydney, todos agora têm uma teoria sobre a derrota do oito. Durante cinco anos fui considerado um gênio por ter conseguido resultados sem ir à Europa. Agora dizem que sou um idiota porque não fomos à Europa antes da Olimpíada!

Quem conhece nossos atletas sabe que são competidores aguerridos, puros-sangues. Não são atletas de treino, são competidores que não temem competir. O que eles aprenderiam competindo na Europa? Que os ingleses e os alemães são bons? Não precisamos viajar tanto para ver se as minhas guarnições são boas ou não! Descubro aqui mesmo. Todas as vezes que levei um barco a um Mundial ou Olimpíada, ele fez lá o mesmo tempo que havia feito aqui em Princeton.

Eu adoraria ir à Europa e os atletas também. Eles amam competir. Mas, se propusesse isto, cinco ou seis não poderiam viajar por causa do trabalho. E as despesas? Para quem mora na Europa, é fácil ir a Viena ou Lucerna. São apenas algumas horas de trem ou carro. Portanto, a única razão de irmos à Europa é pelo divertimento. Nos EUA, não conheço alguém que tenha começado a remar para ir à Olimpíada. As pessoas descobrem o remo e pensam: 'Ah, é divertido!'

Nas escolas e universidades, os jovens aderem ao remo porque gostam da camaradagem, da diversão em grupo, do espírito de equipe. Porém, se o padrão fosse remar 20 km pela manhã e outros 20 km à tarde só com voga lenta e fazendo força, seria muito aborrecido. Duvido que tivéssemos as garagens cheias! Portanto, para nós, ir à Europa é uma diversão, não uma necessidade.

Se remar 20 km com voga lenta fazendo força é aborrecido, como a seleção treina longa distância?

Coloco outro barco ao lado, para que remem com voga lenta competindo entre si. Também procuro adicionar variedade aos treinos. Esta é outra razão porque não ponho um plano de treinamentos na parede. Assim a turma vem com curiosidade: 'Qual é o menu para hoje?' Mas eles sempre possuem uma ideia geral do que os espera.

Ao longo dos anos, o fisiologista Frederick Hagerman mediu e estudou o perfil fisiológico dos remadores dos EUA. Quanto isto ajuda nos treinos da seleção?

Eis um exemplo. Tive um remador com um VO2 absoluto de 7,2 litros e 5min58s no remoergômetro com 12 mmol de lactato. E outro com 5,9 litros, 5min56s e 22 mmol
de lactato. Então concluo que aquele com grande capacidade aeróbica não tem resistência à dor. Já o outro, com um VO2 menor, inundado de lactato e sofrimento, é o homem que eu quero. Prefiro um atleta com motor inferior, mas que lute até cair.

Faço isto sempre. Chris Arhend, voga do oito de Sydney, é um bom exemplo: quatro medalhas de ouro em cinco tentativas. Fisiologicamente ele não é espetacular, mas luta, luta e luta até o fim.

Realizamos dois testes anuais de VO2 máximo, mais três ou quatro sub-máximos para verificar se estamos com risco de supertreinamento.

Isto significa que os seus treinos não utilizam faixas específicas de trabalho baseadas em lactato e frequência cardíaca, mas apóiam-se mais no conhecimento da guarnição e na intuição?

Certo. Em qualquer esporte há aqueles atletas com perfil fisiológico espetacular e outros fisiologicamente inferiores, mas que também atuam muito bem. Nem é preciso conhecer bem um esporte para notar quem são os mais focados, com atitude de campeão. Pensem no Michael Jordan. A equipe está dois pontos atrás faltando 8 s para acabar o jogo. Ele pega a bola, atravessa a quadra e faz um arremesso de três pontos. Como medir isto em termos de lactato? Ele tem sangue de campeão, é competitivo. É isto que eu quero ver nos meus remadores.

Tive o quatro-sem peso-leve de 1996 treinando junto por quatro meses. Fizemos muitos testes de laboratório com eles, porque tive tempo para experiências. Na maioria das vezes, porém, chegam 60 rapazes juntos, digamos, no dia 5 de junho e eu tenho três semanas para decidir quem fica e quem leva tesoura. Se for recorrer aos números para decidir, não sobra tempo para outras coisas. Claro, seu eu pudesse ter uma guarnição por dois anos, faria vários testes para otimizá-la, iria aos detalhes.

Em resumo, fazemos o que trabalha melhor no nosso caso. Mas, por exemplo, se eu estivesse no Brasil, trataria de conhecer primeiro o que se faz lá, qual é a cultura local e criaria uma estratégia adaptada àquela situação. Não tentaria impor métodos adversos à realidade local. Isto é, se estivesse no Brasil, eu seria brasileiro. Por isto o polonês Kris Korzeniowski, meu ex-técnico e atual técnico de palamenta dupla masculino e feminino da equipe nacional, foi um dos treinadores estrangeiros mais bem sucedidos nos EUA. Antes de chegar à seleção, ele trabalhou em universidades e aprendeu como funciona o sistema e a cultura local.

Quando treinei a Universidade de Princeton, fiquei encantado com aquele lago todo para nós, as belas instalações... Estava cheio de ideias, mas tive de abdicar delas, abrir mão de muita coisa que acho ideal para adaptar-me ao sistema da universidade. Aprendi bastante com aquilo.

Outro dia falei com os ingleses e eles comentaram que muitos dos atletas do oito campeão de Sydney também trabalham e continuaram a remar depois da Olimpíada. Então respondi: 'Com vocês é assim. Aqui é diferente'. A vida nos EUA é toda estruturada e planejada. O jovem faz quatro anos de faculdade, decide remar mais dois ou três anos para uma Olimpíada e, perdendo ou ganhando, sabe que irá parar a fim de dedicar-se a uma carreira ou retomar a vida acadêmica. Não posso afirmar se concordo ou discordo disto, mas é um fato que não tenho como mudar. E este é o lado ruim do Centro Olímpico de Chula Vista. Pensaram que iriam colocar o remo no clima quente do sul da Califórnia, onde não há neve ou gelo, e todos correriam para treinar lá. Ocorreu o contrário: a turma preferia não remar na seleção a mudar para lá e não ter onde trabalhar. Por isto, quando assumi a equipe masculina, em 1997, fiquei isolado lá, sem atletas. Então decidi vir para onde eles preferem ficar.

O coração do remo dos EUA está entre Boston e Washington, D.C., onde moram 90% dos remadores. Então é mais fácil trazer os 10% restantes para cá do que mudar os 90% para Chula Vista.

Isto significa que a flexibilidade é uma das principais regras do jogo.

Obviamente. Há técnicos aqui que pensam assim: 'Se vamos competir na Austrália, precisamos estar adaptados ao horário de lá. Vamos passar a treinar às 4 h da manhã e ao meio-dia'. Lorota! E se houver uma ventania e a regata for adiada para a tarde?

Só posso controlar o que os meus atletas fazem por 90 min pela manhã e outros 60-75 min à tarde. No resto do tempo, a vida é deles. Trato de ficar fora dela. Nada de imposições. Eles têm consciência de que precisam comer bem, descansar e manter a saúde.

Há até o caso de remadores que só treinam conosco três dias na semana. O resto do tempo treinam sós. Há os que moram em outras cidades e só aparecem nos fins de semana. Se não for flexível, não tenho atletas.

Então, a sua receita básica é selecionar os atletas certos e ser flexível?

Correto. São dois elementos indispensáveis na equação do sucesso.

(*) Professor de Educação Física e jornalista, reside na Califórnia, onde rema pelo Berkeley Rowing Club. Endereço: opefa@aol.com
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