Club Atlhetico Paulistano - Remo
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FATOS SOBRE O REMO DOS ESTADOS UNIDOS
Wilson Reeberg e José Luiz Emerim

-O sucesso internacional do remo dos Estados Unidos é apoiado em quatro pilares: massificação, liberdade de iniciativa, espírito empreendedor e uma administração profissional, voltada para o crescimento do esporte. Mais de 300 novos clubes de remo surgiram no país na década de 90. O objetivo deste artigo é apresentar alguns fatos e dados que explicam a razão de tal crescimento.

ORGANIZAÇÃO
A US Rowing é a entidade que representa o remo a nível nacional e internacional. Seus
dirigentes são eleitos pelos atletas membros da organização, cerca de 15.500, em 2000. Não existem federações estaduais, como no Brasil. Cada candidato publica a sua plataforma na revista da US Rowing. Os pontos mais analisados pelos milhares de eleitores são o que cada um pretende fazer pelo esporte e com que meios, bem como o que ele já fez como dirigente.
A US Rowing opera com uma estrutura altamente profissional, apesar de não receber verba governamental. Seus recursos provém das anuidades dos sócios, taxas de participação nos eventos que organiza (regatas, cursos, congressos), campanhas para angariar fundos, venda de souvenirs, verbas da National Rowing Foundation, etc.
Medalhas são vencidas em campeonatos mundiais e Olimpíadas com um orçamento surpreendentemente baixo, para os padrões dos Estados Unidos. Em 1999, foram apenas US$ 3,5 milhões, para cobrir todos os gastos da US Rowing x desde pagamento de pessoal e administração até as viagens e competições das seleções nacionais. A prestação anual de contas é sempre publicada e distribuída aos membros. Além da cúpula dirigente (não remunerada), há pessoal administrativo e coordenadores regionais remunerados responsáveis pelo desenvolvimento do esporte, organização das regatas patrocinadas pela US Rowing e de cursos para a formação de técnicos e árbitros.
A US Rowing realiza as regatas que levam o título de Campeonato Regional ou Campeonato Nacional, seja de júniores, classe aberta ou másters, abertos exclusivamente aos atletas filiados à entidade. A National Collegiate Athletic Association (NCAA) e a Intercollegiate Rowing Association (IRA) realizam campeonatos nacionais para universitários. A Masters Rowing Association (MRA), fundada em 1999, também realiza o seu campeonato nacional de másters, além de outras regatas para esta categoria, abertas a filiados e não filiados. Diversas outras entidades (as chamadas conferências, comissões de regatas, associações interclubes, ligas regionais ou mesmo um único clube) organizam regatas de âmbito local, regional, nacional e até internacional.

SELEÇÃO NACIONAL
A pré-seleção de atletas para a equipe nacional começa em novembro x para os júniores, e em dezembro, para as demais categorias. Inicialmente, são observados os resultados no remoergômetro em 6.000 m (em novembro, dezembro e janeiro) e depois em 2.000 m (em fevereiro, março e abril). A partir daí, o aproveitamento do atleta dependerá do seu desempenho em competições e em eliminatórias, realizadas durante a temporada, bem como do seu rendimento nos centros de treinamento.
Qualquer remador, independente do seu nível técnico, têm o direito de desafiar os barcos da seleção em uma eliminatória nacional. Basta terem um barco, serem membros da US Rowing e pagarem a taxa de inscrição. Se a guarnição desafiante vencer, ela irá representar os Estados Unidos, tal como está formada, com direito a indicar o seu técnico.
A US Rowing não possui centros de treinamento próprios, nem mesmo barcos próprios. Em Princeton, por exemplo, a seleção nacional utiliza as instalações da Universidade, cedidas gratuitamente. Em Chula Vista (Califórnia), utiliza as do ARCO Training Center, pagando aluguel ao Comitê Olímpico dos Estados Unidos. A maioria dos barcos que a seleção utiliza são alugados.

COMPETIÇÕES
O calendário de 2001 tem cerca de 450 competições programadas. São regatas de curta e longa distância (as xHead of...x), disputas interuniversitárias, campeonatos de remoergômetro, campeonatos regionais e nacionais. Dentre todos esses eventos, a US Rowing organiza, em 2001, apenas onze. Os demais são de responsabilidade de quem os cria. É comum uma regata durar dois dias, com eliminatórias no sábado durante todo o dia e as finais no domingo.-  ---
Dezembro, janeiro e fevereiro são os meses dos campeonatos de remoergômetro, que culminam com o CRASH-B, o campeonato mundial da modalidade, realizado anualmente em Boston. Em outubro começam as regatas de longa distância, que se prolongam até março.-  ---
x Qualquer um pode organizar uma regata. Não precisa pedir autorização à US Rowing. Cada organizador trabalha para obter os seus patrocínios. Todo pessoal de apoio é composto por voluntários, mesmo em regatas importantes, como a primeira etapa da Copa do Mundo de 2001, realizada em Princeton.
Para competir em qualquer regata, exceto nas estudantis e nas universitárias x estas organizadas pela National Collegiate Athletic Association (NCAA) e pela Intercollegiate Rowing Association (IRA) o atleta não precisa pertencer a uma instituição jurídica, tipo clube. Ele é a própria instituição, um clube virtual. Também é possível remar numa mesma regata por mais de um clube. O que importa e ter uma grande quantidade de barcos competindo. Assim, toda grande regata possui um quadro de avisos onde remadores avulsos anunciam a sua idade, peso, especialidade e telefone de contato. Guarnições que viajam incompletas ou sofrem imprevistos de última hora valemxse deste recurso para competir. O mesmo vale para timoneiros.
Para competir no exterior, nenhum atleta ou clube necessita a aprovação da US Rowing.
As universidades, além dos seus campeonatos regulares, participam de outras regatas e ainda travam duelos anuais com adversários históricos, como Harvard x Yale ou UC Berkeley x Universidade de Washington, por exemplo. A prova principal sempre é a dos oitos titulares (varsity crew), mas também é utilizado o quatro-com.
Rema-se e compete-se em qualquer xpoça dxáguax (mar, lagos, rios, canais), em retas e em curvas, e não necessariamente em 2.000 m. Há regatas com provas para júniores, sêniores, veteranos, deficientes físicos, mistas, pais e filhos, nas mais variadas distâncias e tipos de barcos possíveis. Há provas até para escaleres. A Califórnia Henley, por exemplo, é disputada num canal de apenas 1700 m, no qual só cabem dois barcos e é preciso passar por entre as pilastras de duas pontes. A disputa é realizada em eliminatórias simples: quem perde sai e quem vence avança, até haver um vencedor. Em casos assim, é necessário limitar o número de participantes por prova. Em termos de números, há opulência. Uma mera regata regional é capaz de reunir numa prova como, digamos, o oito júnior feminino mais de quinze participantes, com algumas escolas ou clubes entrando com guarnições A, B e C. Outro exemplo é a San Diego Crew Classic, a maior regata de oitos do mundo. São quatro dias de remo total com provas a cada dez minutos das 7 h às 16 h, sem atrasos. Na quinta e na sexta-feira são disputadas as eliminatórias; no sábado e no domingo as finais, totalizando mais de 350 provas, que reúnem um contingente acima de 3.000 atletas. Há um limite de 21 guarnições por prova. A regata é totalmente independente da US Rowing e gerida por uma organização voluntária, sem fins lucrativos, criada especificamente para tal fim, a exemplo de muitas outras realizadas no país.
E o público? No sábado e no domingo, é cobrado um ingresso de US$ 5 na San Diego Crew Classic. Como a regata é disputada num parque com praia, mais de 30 mil pessoas pagam para fazer piqueniques na grama, churrasco e distraírem-se com as furiosas disputas dos oitos. Uma parte importante da receita dos organizadores vem do público pagante, já que os US$ 300 mil necessários para promover a festa ainda não possuem patrocínio suficiente. Mas, a campeã de público é a famosa Head of the Charles, disputada anualmente em Boston, na distância de 5 km, reunindo cerca de 500 mil pessoas ao longo do percurso, nos seus dois dias de duração. Tradicionalmente, as famílias reúnem-se às margens do rio para fazer piqueniques e apreciar o espetáculo de centenas de barcos digladiando-se sob as pontes e nas curvas do rio Charles.

VERBAS
Apesar da riqueza de equipamento ser uma característica comum nos Estados Unidos, convém lembrar que a maioria dos programas de remo de escolas secundárias, universidades, clubes e até da seleção nacional dependem de arrecadações de fundos.
Ninguém espera por ajuda financeira governamental para fazer alguma coisa, simplesmente porque ela não existe. O lema é sempre xarregaçar as mangas e sair em busca de recursosx. Tudo o que pode render algum dinheiro é feito para obter fundos.
Nas escolas, o remo é valorizado pelo seu aspecto educativo e, portanto, a comunidade mobiliza-se para garantir que os seus filhos tenham o melhor. São organizadas festas beneficentes, rifas, atividades do tipo venda de bolos e doces,  lavagem de automóveis, e até limpar as arquibancadas de um estádio de futebol, uma atividade que pode render até US$ 5.000 em algumas horas. Todo o dinheiro arrecadado pelos voluntários vai para um fundo especial que irá custear o objetivo em vista: seja uma regata, a compra de equipamento ou a viagem da equipe a uma competição.
Já os clubes lançam mãos de várias estratégias para atingir os seus objetivos, tais como: cobrança de mensalidades, aluguel de espaço para guardar barcos, escolinhas, clinicas de treinamento, festas beneficentes, doações e organização de regatas com cobrança de inscrições.
Nas universidades, apesar do prestígio e da tradição, também é preciso buscar dinheiro de fora, já que o remo é uma atividade que não produz renda. Embora a instituição arque com várias despesas, são as doações que garantem a saúde do esporte. Ex-remadores alunos e suas famílias têm orgulho de doar barcos para as suas universidades, os quais têm o nome do doador e ano de formatura inscritos na proa. As garagens monumentais também são fruto de doações e campanhas para angariar fundos realizadas pelos próprios alunos e ex-alunos.
Até a US Rowing passa o chapéu para engordar a receita todo ano. Parte do seu orçamento apóia-se em doações feitas pela National Rowing Foundation, uma organização independente sem fins lucrativos, mantida por amantes do remo, que capta recursos destinados a auxiliar o esporte, em diversos níveis. As anualidades dos membros x atualmente de US$ 45 x também ajudam a pagar as contas. O restante vem de patrocínios, da venda de produtos da marca US Rowing, doações, além de iniciativas inusitadas, como ocorreu em 2.000. Para complementar os fundos necessários à viagem a Sydney, o oito feminino olímpico, durante uma exibição no Campeonato Nacional de Masters, estava vendendo por US$ 250 a oportunidade de alguém sair no barco, no lugar de uma titular, e atirar 250 m com a guarnição para xexperimentar a velocidade olímpicax. Foram também vendidas camisetas autografadas pelas atletas e a oportunidade de posar para fotografias com elas. Muita gente participou orgulhosamente.
Nas regatas, é comum haver uma tenda ou local especial para os patrocinadores e benfeitores do remo, onde eles têm tratamento VIP.
Quando o patrocinador é forte, geralmente é criada uma prova especial de quatro-com em que os seus funcionários são convidados a participar. Então eles aprendem a remar em algumas semanas, descem 500 m à voga 24-26, batendo as pás na água, mas orgulhosos do seu feito.

SUPORTE PARA O ATLETA
Embora a US Rowing não se gabe disto e trabalhe para mudar tal realidade, os atletas da seleção geralmente não recebem remuneração. Exceto em ano olímpico, quando há uma ajuda mensal que varia de US$ 600 a US$ 1.100, e apenas após o remador ter vencido a eliminatória nacional. Em 2001, apenas as guarnições de barcos olímpicos tiveram as despesas cobertas, para participar do Campeonato Mundial, em Lucerna. As guarnições de barcos não-olímpicos que quiseram ir ao Mundial tiveram de arcar com todas as despesas x US$ 3.300 por atleta e US$ 2.500 para o técnico. Somente as que ficaram entre os 50% dos competidores mais bem classificados foram reembolsadas. Mas há um esforço permanente para colocar os membros da seleção em bons empregos perto do centro de treinamento.
Existem firmas que dão emprego de tempo parcial para remadores e anunciam isso. Algumas chegam a assinar convênio com a US Rowing para empregar remadores da seleção nacional.

CAPACITAÇÃO DE PESSOAL
Há dezenas de centros de treinamento particulares espalhados pelo país e que vão desde a iniciação do remador até o treinamento de alto nível.
Cursos de formação e aperfeiçoamento para técnicos x em cinco níveis x e árbitros são realizados o ano inteiro, por iniciativa da US Rowing, com o apoio de clubes, universidades ou de particulares.
Os técnicos de remo, inclusive das mais renomadas universidades, têm as mais diversas formações acadêmicas, o que nem sempre inclui Educação Física.
Timoneiros também têm vez. Em 2001, foi realizada a 1ª Convenção de Timoneiros, em Philadelphia, organizada por Reade Palmer, timoneiro medalha de ouro na Copa das Nações de 1999. Compareceram mais de 200 participantes, os quais tiveram oportunidade de exibir vídeos de suas atuações e receber conselhos de como melhorá-las. Participaram timoneiros até da Califórnia, distante seis horas de vôo.
De abril a outubro são realizadas dezenas de clínicas de remo, promovidas por clubes, universidades e até por empresas como a Nike. Os seus objetivos vão desde a iniciação esportiva e aperfeiçoamento técnico para atletas de qualquer idade à identificação de potenciais remadores de seleção
No caso dos júniores, a US Rowing realiza três clínicas anuais. A primeira, chamada de identificação de talentos, dura um fim-de-semana e é aberta a qualquer remador júnior. Estas são organizadas, simultaneamente, em vários pontos do país. Dali são convidados atletas para as clínicas de desenvolvimento, com a duração de uma semana, realizadas durante as férias escolares de verão, também em diversas cidades. Destas, são escolhidos os remadores que participarão da clínica de selecionamento, visando formar a equipe nacional que competirá no Campeonato Mundial de Júniores. É importante frisar que cada atleta responde pelas suas próprias despesas durante tais clínicas, embora a US Rowing ofereça descontos de grupo e outras facilidades.

MASSIFICAÇÃO
x A massificação apóia-se na facilidade de acesso ao remo, bem como no grande número, variedade e localização das competições. Todos têm chance de remar e de competir, qualquer que seja a idade e biotipo. Basta conseguir um barco e inscrever-se numa regata. Rema-se acima de tudo por prazer, e não apenas para ser campeão olímpico.
x Anualmente é celebrado O DIA DE APRENDER A REMAR, onde clubes e academias que tem remoergômetros são convidados a abrir gratuitamente as suas portas para todos os interessados. Muitos locais disponibilizam barcos para o público. Em 2001, a data foi comemorada em 19 de maio. Estima-se que mais de 5.000 pessoas remaram pela primeira vez na vida.
x A maior parte da massa praticante jovem provém das escolas de segundo grau e das universidades. Mas o remo máster ganha adeptos numa velocidade impressionante. A Masters Rowing Association estima em mais de 100.000 o número de remadores másters nos Estados Unidos (entre ativos e inativos). Há um grande interesse em estimular esta faixa praticante, por ser ela composta por pessoas de maior poder aquisitivo, capazes de dar suporte financeiro aos clubes, viajar e comprar barcos e equipamentos. Há toda uma infraestrutura de apoio a esta classe, como centros de treinamento com cardápios gourmet, pacotes turísticos que incluem a participação em regatas nos EUA ou no exterior e até descontos na compra de automóveis Subaru, cuja fábrica patrocina a Masters Rowing Association.
x Depois de graduado, o remador vai para um clube ou continua treinando por conta própria. É comum ele pagar um treinador para orientá-lo. Com a facilidade dos xclubes virtuaisx, que nem precisam de registro oficial para existir, tudo o que muitos deles necessitam para competir é o barco e um suporte para levá-los no carro de regata em regata. Automóveis carregando skiffs, dois-sem e double-skiffs são cena comum nas estradas dos Estados Unidos.

BARCOS
x É impressionante a quantidade de fabricantes de barcos, todos com qualidade: Vespoli, Resolute, Dirigo, Graemer King, Maas, Pocock, Kaschper, Quantum (ex-Elite), Peinert, Alden, Van Dusen, Ron Owen, etc. Há fabricantes canadenses que atendem o mercado dos Estados Unidos, como Hudson e Drew Harrison. Barcos alemães, como o BBG Bootsbau Berlin e Empacher, italianos, como Filippi e Cucchietti, e até os chineses da Fuyang Flying Eagle Company, por exemplo, estão disponíveis para pronta entrega, nos seus representantes. Alguns também fabricam carretas e lanchas anti-marolas. Há fabricantes que se dedicam apenas a uma faixa muito especial de consumidor: o remador recreativo. Outros, a quem pratica o remo no mar e em águas agitadas, uma modalidade conhecida como águas abertas (open water rowing). Recentemente os fabricantes passaram a oferecer garantia de cinco anos nos barcos e financiamento para a sua aquisição. - ---
x Também existem fabricantes de remos e componentes para barcos, como carrinhos, forquetas, finca-pés, armações para transporte de barcos em carros, cavaletes, prateleiras, equipamentos eletrônicos x como cronômetros de remada, anemômetros, equipamentos de som para o barco x além de confecções de roupas especiais para o remo.
x Há empresas especializadas em alugar e transportar barcos para a temporada, e outras só em consertá-los. Devido a grande massa praticante, também há seguradoras que vendem apólices para segurar o barco e o remador.

CLUBES
Vários clubes de remo são instituições lucrativas. Funcionam como academias, onde tudo é pago: barcos, hora do técnico, hospedagem de embarcações, etc. E sobra gente querendo remar.
Carretas e cavaletes são as sedes de muitos xclubes virtuaisx e de escolas secundárias que não têm garagem. Os barcos ficam ali armados, na sombra ou ao sol, prontos para serem remados.
Outro conceito que ganha popularidade é o do remo comunitário. Um dos melhores exemplos é o Boston Community Rowing, em Boston. Lá são organizados anualmente dezenas de programas diferentes, para todas as faixas etárias, nos mais variados horários. Há desde o remo de lazer até o seriamente competitivo. O fenômeno chamou a atenção até da revista The Economist, que fez em 2000 uma bela matéria sobre o assunto, apontando a tendência dos profissionais de escritórios abandonarem as tradicionais academias de ginástica em busca do remo, classificado como um esporte ao mesmo tempo desafiador e saudável, ao ar livre.
Há prefeituras que constroem garagens para uso de escolas e do público. Outras que reservam uma área ao ar livre, numa marina ou num parque. Nesses espaços, apenas cercados por uma tela, sem cobertura, funcionam escolinhas de remo mantidas pela comunidade.
O acesso aos barcos é feito de três formas. O atleta paga para usar as embarcações do clube, compra o seu próprio barco ou aluga um. O aluguel pode ser por hora, semanal ou mensal.

UNIVERSIDADES
Nas universidades, o oito é o grande barco. É nele que todos são iniciados, treinam e competem. Em segundo lugar vem o quatro-com. As regatas universitárias são disputadas só em oito e em quatro-com. Algumas vão de manhã à tarde, com raia cheia, sábado e domingo.
Os treinos das equipes universitárias tem hora certa para começar e para terminar, pois os alunos precisam cumprir os horários de aulas, de estudo, de refeições, etc. Não se vê gente ociosa nas garagens.
Toda garagem universitária, sem exceção, tem nas paredes fotos de guarnições antigas, muitas com mais de cem anos. Respeita-se o passado. Algumas exibem fotos de todos os treinadores. A Universidade da Califórnia, em Berkeley, tem quadros até dos barqueiros que por ali passaram. Afinal, foram os homens do passado que lançaram os alicerces do sucesso atual.

SISTEMA PERFEITO?
Como pode ser observado nesta rápida exposição de fatos, o sistema dos EUA pode não ser perfeito, mas possui méritos inegáveis, como a massificação, a liberdade de iniciativa e a estrutura profissional, que garantem sozinhos ao país um lugar de grande destaque no cenário internacional. Com uma economia forte, tanta gente remando e acesso fácil aos melhores equipamentos, fica mais fácil subir ao pódio.
Não há exagero em afirmar que o Brasil possui certas vantagens em relação ao remo dos EUA. Tais como: é possível remar o ano inteiro, mesmo no inverno, por causa da ausência de neve; a iniciação de remadores é muito superior no Brasil e feita mais cedo; o timoneiro brasileiro é bem mais preparado e eficiente; e os melhores remadores recebem ajudas de custo e salários. Mas o Brasil perde na falta de massificação e na ausência de uma estrutura mais democrática, que ajude o atleta a prolongar sua vida ativa. Anualmente, centenas de pessoas param de remar, porque são obrigadas a competir sob a bandeira de um clube, que não as quer mais por um motivo ou por outro. E embora todos reclamem que o remo brasileiro vem encolhendo, nada é feito para reverter o processo.
Por iniciar principalmente os seus atletas no oito, os EUA carecem de bons remadores de palamenta dupla. Outro problema sério é a falta de incentivos que garantam a continuidade da carreira atlética após o término da universidade. E isto puxa outra questão interessante: a falta de experiência dos técnicos. Em sua maioria, eles remaram apenas quatro anos na universidade, só em oitos e quatro-com, sem qualquer passagem pela palamenta dupla ou barcos menores. O seu universo limita-se àquilo que viram o seu técnico fazer. É comum um remador de sucesso sair da universidade e receber uma oferta de emprego como técnico de iniciantes ou auxiliar. Só resta-lhe repetir aquilo que fizeram com ele. Eis porque os técnicos da equipe nacional lutam para conseguir implantar centros de desenvolvimento, onde os remadores com potencial de seleção possam ser melhorados e polidos.
Também não há exagero em afirmar que há regatas universitárias que são vencidas por quem sabe remar um pouco melhor. A quantidade de guarnições que chega 300 m atrás do campeão remando mal impressiona. Exatamente pela falta de profissionais capazes de realizar uma boa iniciação.
Porém, apesar das falhas, os EUA conseguem manter um sistema de sucesso, com um aumento constante da massa praticante, que consome equipamentos e, por conseqüência, gera aperfeiçoamentos e inovações.
A livre iniciativa x estimulada por um sistema descentralizado x é, sem
dúvida, a sua maior virtude. Diversas entidades trabalham para proporcionar oportunidades para os remadores,não para serem donas do remo. A missão da US Rowing, por exemplo, não é dirigir o remo dos Estados Unidos, mas xservir aos seus membros, fornecendo liderança e oportunidades para que todos remem, da recreação à vitória olímpicax.
Foi através da liberdade de praticar o remo, acima de tudo por prazer, e da participação e escolha democrática dos seus quadros dirigentes que as pessoas nos Estados Unidos motivaram-se a buscar soluções engenhosas que superam eventuais carências e defeitos.

- Endereço dos autores-
Wilson Reeberg: wilsonreeberg@uol.com.br
José Luiz Emerim: opefa@aol.com
 
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