Club Atlhetico Paulistano - Remo
Noticias/Histórico/Títulos/Infra-estrutura/Horários/
Fotos/Atletas/Artigos/Links/E-mail

Conversando com Jürgen Groebler

José Luiz Emerim*

 Cheguei na primeira regata da Copa do Mundo de Remo de 2001, em Princeton, Nova Jersey, com uma missão maior, uma espécie de compromisso pessoal: entrevistar o alemão Jürgen Groebler, técnico da equipe inglesa. Simplesmente saber que ele fora o responsável pelo quatro-sem inglês de Sydney, a guarnição mais famosa da história do remo, tri-campeã mundial (1997-98-99) e campeã olímpica em 2000, com os legendários Steve Redgrave e Matthew Pinsent, já fazia o meu sangue borbulhar.

Eu o conhecia de fotografias. Não tive dificuldade em localizá-lo à margem do Lago Mercer. Estudei a fera por alguns minutos e fui ao ataque. Uma pequena introdução em alemão– sou do tempo em que era necessário saber um pouco de alemão para ler algo sobre remo no Brasil– e estava marcada a entrevista. Groebler fala inglês fluentemente e o meu alemão tem pouco fôlego. Mas é sempre simpático falar com as pessoas em seu idioma nativo e elas apreciam a gentileza. A entrevista seria na quinta-feira, dois dias antes da regata, ali mesmo, durante o treino do dois-sem de Matthew Pinsent e James Cracknell, que iniciava a sua vitoriosa trajetória internacional em Princeton.

Nos dias seguintes, todas as vezes que passou por mim, Groebler sempre cumprimentava, antecipando o homem simpático que eu viria a conhecer melhor depois. Na quarta-feira, ao visitar com a delegação brasileira a garagem de remo da Universidade de Princeton, lá estavam também passeando Groebler, Pinsent e Cracknell. Os dois campeões olímpicos graciosamente atenderam ao meu pedido para que posassem para fotografias ao lado dos brasileiros. Dali para frente, passei a ser cumprimentado diariamente pelo trio. Não podia querer afago maior ao ego. Groebler até chamou-me a atenção para uma sala com mais de 70 remoergômetros que nos havia escapado na visita à universidade. Segundo ele, não há similar na Inglaterra.

 TREINADOR DO ANO

A tarefa que eu tinha pela frente era um desafio excitante: entrevistar o Treinador do Ano eleito pela FISA em 2000 e uma das maiores legendas do remo mundial. Formado na antiga Alemanha Oriental, onde iniciou-se no remo e trabalhou de 1970 a 1990, o seu currículo (vide quadro no final) contém medalhas olímpicas de 1972– seu segundo ano como técnico– a 2000, e quase todas elas de ouro, tanto na palamenta dupla como na simples. A única interrupção foi 1984, quando os países da Cortina de Ferro boicotaram os Jogos de Los Angeles.

Com a Inglaterra, onde assumiu o cargo de técnico-chefe em 1992, foram quatro títulos mundiais e dois olímpicos com Pinsent-Redgrave no dois-sem. Entre 1993 e 1996, a dupla acumulou 62 vitórias internacionais sucessivas. Aí iniciou-se a saga do quatro-sem, composto ainda por Cracknell e Tim Foster, que culminou com a quinta medalha olímpica de ouro de Redgrave. Foram três títulos mundiais e um olímpico, com apenas uma derrota– um quarto lugar na etapa de Lucerna da Copa do Mundo, dois meses antes dos Jogos de Sydney.

Uma das habilidades mais marcantes de Jürgen Groebler é a de estrategista, característica que imprime em suas guarnições. Ele acredita na importância de uma largada poderosa para dominar a prova desde o início. O quatro-sem inglês de Pinsent-Foster-Redgrave-Cracknell celebrizou-se pelas suas partidas arrasadoras, seguidas de um percurso com voga 38 e forte passagem na água, que geralmente permitia uma liderança até superior a um barco nos 1.000 m. O detalhe que tornou o quatro-sem lendário foi a sua capacidade de responder imediatamente, de forma fulminante, a qualquer ataque em qualquer momento da prova. Segundo os adversários, eles "pareciam ter uma marcha extra".

Mas uma carreira tão vitoriosa não se desenrola sem problemas. O seu mais famoso erro de avaliação aconteceu quando Redgrave decidiu, em outubro de 1996, ir para a sua quinta medalha de ouro olímpica. Jürgen Groebler não apoiou a ideia, porque não acreditava que o tetracampeão aguentaria mais quatro anos de trabalho duro. Com a insistência de Redgrave, embarcou no projeto. Hoje, admite o engano com prazer.

O momento mais embaraçoso de sua carreira ocorreu em 1998, quando as vitórias das guarnições inglesas sob o seu comando foram colocadas sob suspeita de doping. O resultado de uma investigação federal alemã sobre o uso de doping com atletas na extinta Alemanha Oriental mencionou o seu nome. Groebler admitiu ter experimentado com substâncias proibidas na época, por pressão do Estado, mas garantiu ter as mãos limpas na Inglaterra. Várias entidades nacionais saíram em sua defesa. Nunca um atleta inglês de remo foi flagrado em exames anti-doping.

A ENTREVIS TA

Longe de ser uma estrela, Groebler não costuma chamar atenção para si. Nem pela estatura– ele é baixo– nem pelos gestos. De fala tranquila e pausada, por trás daquela aparência discreta está um homem com mão de ferro, dono de um profundo conhecimento dos mistérios do remo e da mente dos seus atletas. A mão de ferro não significa ser um ditador, mas um homem que sabe o que quer e luta pelos seus objetivos. No dia-a-dia, ele dialoga com os atletas e aperta ou cede, conforme necessário. Steve Redgrave atribui a ele a sua quinta medalha olímpica de ouro. "Devido aos meus problemas com a diabetes, houve dias em que pensei em desistir. Toda vez que o procurei, sempre saí com uma frase de estímulo que me permitia lutar por mais algum tempo. Só cheguei a Sydney por causa dele", declarou à imprensa após a vitória.

Por seus feitos brilhantes, Jürgen Groebler foi eleito em 2000, dentre todas as modalidades esportivas, o Técnico do Ano pelo BBC Sports Personality Awards, a mais prestigiosa premiação esportiva da Inglaterra. O seu nome também entrou para o Hall da Fama da National Coaches Foundation e ele passou a ser um palestrante ainda mais requisitado, seja em atividades beneficientes ou para motivar empresários.

Na tarde de quinta-feira, após Jürgen dar as instruções ao dois-sem, rumamos para um banco perto da margem do lago, onde ele tinha uma ampla visão da raia, e conversamos longamente. Perguntei se não estava a atrapalhar o treino, mas ele garantiu-me que a guarnição sabia o que fazer e não precisava dele.

  -        Como começou a sua carreira na Alemanha Oriental?

Nasci em 31 de julho de 1942, em Magdeburg, e cursei a Escola de Educação Física de Leipzig de 1965 a 1970, quando iniciei-me como técnico profissional de remo. A minha carreira como remador foi sem expressão. Remei como júnior a nível de clube e em regatas escolares, mas nunca tive destaque nacional.

O meu primeiro emprego foi como assistente num pequeno clube em Magdeburg e a missão era recomeçá-lo do zero, como técnico de palamenta dupla. Na Alemanha, toda a iniciação, até hoje, é feita no skiff. Em 1972, surgiram os primeiros resultados: Wolfgang Guldenpfennig, um atleta do nosso clube treinado por mim, conquistou a medalha de bronze no skiff, na Olimpíada de Munique.

Nos Jogos de Montreal, treinei o dois-sem e o four-skiff vencedores. Em Moscou, o dois-sem dos irmãos Bernd e Jorg Landvoigt venceu novamente e o meu singlista foi terceiro. De 1981 a 1990, fui o técnico-chefe da equipe feminina. O ápice aconteceu em Seul (1988), quando vencemos cinco das seis medalhas de ouro olímpicas no feminino.

-        Depois veio a sua transferência para o remo inglês...

Sim. No dia 1 de janeiro de 1991 assumi como técnico do Leander Club, em Henley-on-Thames, na Inglaterra, e assessor técnico da seleção inglesa masculina. Após o Jogos de 1992, passei a técnico-chefe da equipe nacional masculina e continuei a trabalhar com Pinsent e Redgrave.

Tem sido um período de sucesso, onde conseguimos implantar uma filosofia de treinamento mais consistente e científica e desenvolver uma nova geração de técnicos.

Parece que os seus métodos, no início, mexeram com a dupla Pinsent-Redgrave.

Troquei alguns conceitos na cabeça deles. O Redgrave já era bi-campeão olímpico, estava um pouco saturado e queria mudar algumas coisas. No início, eu tinha dificuldades com o idioma e a comunicação era mais difícil entre nós. Propus alterações no treinamento e ele e o Pinsent aceitaram, mesmo sem entender muito. Às vezes, eles chegavam a mim e questionavam se a metodologia estava correta. Não percebiam como poderiam ficar velozes remando a maior parte do tempo com voga baixa. Eu pedi que confiassem no trabalho, porque os resultados surgiriam. Depois da primeira vitória, eles compreenderam e estabelecemos uma profunda relação de confiança mútua.

-        Qual é a sua relação atual com o Leander Club?

É a nossa base de treinamento. Trabalho lá com os atletas de seleção do Leander e de outros clubes. Não sou pago pelo Leander, só pela seleção. Como não temos um centro nacional de treinamento, operamos a partir de clubes que apóiam a equipe nacional.

-        Como é a sua rotina diária como técnico-chefe?

Até o ano passado, treinei o quatro-sem. Agora estou com o dois-sem, mas supervisiono os treinos de outros barcos, dou cursos e palestras para técnicos, elaboro o plano nacional de treinamentos e tenho reuniões periódicas com os meus assistentes em outros locais.

Acompanho o dois-sem diariamente pedalando na margem do rio. Em Henley, não é permitido o tráfego de lanchas. Só barcos a remo. Portanto, se eles remam 20 km, eu pedalo a mesma distância, sempre com rádio e cronômetro na mão. Mantenho um minucioso diário de treinamento, onde estudo a evolução da guarnição. Foi assim que descobri que deveria dar uma semana de folga ao quatro-sem após a derrota em Lucerna, no ano passado. Eles estavam treinando muito pesado e perdendo o foco.

Também notei que o rendimento da remada havia caído: a voga subia mas o andamento do barco não. Percebi que a causa estava num pequeno encurtamento da remada no ataque, coisa da ordem de 5 cm a 10 cm. Era necessário melhorar a técnica de aplicação da força e isto só seria possível com o grupo descansado. Melhoramos a remada e o rendimento e garantimos o ouro em Sydney. É preciso saber ser flexível, recuar para poder avançar.

-        Explique o processo de seleção da equipe nacional inglesa.

O sistema baseia-se nos atletas dos clubes e universidades. Duas vezes ao ano temos um processo seletivo nacional com provas de 6 km no skiff e no dois-sem, aberto a todos. Assim escolhemos os candidatos à equipe nacional.

Não temos ainda um centro nacional de treinamento. Portanto, elaboramos um plano nacional de treinos, que é executado basicamente em três núcleos: Cambridge, Londres e Henley. Gostaria que a equipe nacional treinasse mais espalhada, para dar o exemplo a outros centros, também permitindo o envolvimento de mais técnicos.

Precisamos aproveitar o impulso que recebemos a partir de 1996, quando o dois-sem de Pinsent-Redgrave foi a única medalha de ouro da Inglaterra naqueles Jogos Olímpicos. O quatro-sem virou paixão nacional e tornou o remo, que é um esporte tradicional, ainda mais popular com a vitória em Sydney. Lembre que 7,5 milhões de pessoas ficaram acordadas até de madrugada para assistir pela televisão e celebrar a vitória do quatro-sem. Para um país como a Inglaterra, é uma audiência espetacular. Especialmente tratando-se de remo.

Isto possibilitou uma bela relação com a mídia, principalmente tendo um herói nacional como o Steve Redgrave.

-        De onde sai o suporte financeiro para a seleção?

O fracasso olímpico de 1996 levou o governo britânico a criar a Loteria Esportiva, com o objetivo de arrecadar fundos para o custeio dos esportes olímpicos. Tivemos menos medalhas de ouro do que países pobres como o Quênia, por exemplo, e o povo não ficou satisfeito com isto. Desde 1997, passamos a ter dinheiro para pagar as despesas administrativas, técnicos e pessoal de apoio, material e locais de treinos. Antes, os recursos eram bem mais escassos. Até 1996, eu era o único técnico remunerado da equipe nacional.

O investimento anual em remo atualmente gira em torno de₤ 1,5 milhão, o que também permite dar ajuda financeira aos atletas, baseada no desempenho individual. Claro, não se compara ao que recebem os atletas profissionais de outras modalidades, nem permite viver confortavelmente apenas do remo. Por diversas razões, estimulamos nossos atletas a ter atividades acadêmicas ou profissionais fora do remo. A maioria deles estuda ou trabalha em meio turno.

-        Não é o caso do Pinset e do Cracknell...

Eles são um caso à parte, mas ambos desenvolvem diversas atividades remuneradas fora do remo. Pinsent é convidado a dar palestras a empresários, para ser o mestre de cerimônias de festas, inauguração de lojas e supermercados. E o Cracknell desenvolve uma carreira jornalística, escrevendo artigos e comentários para jornais e revistas.

Com o fim do patrocínio da Lombard ao quatro-sem de Sydney, os dois procuram agora um patrocinador permanente para o dois-sem até Atenas.

-        Como funciona a rotina de treinos do dois-sem?

Basicamente, doze treinos por semana, com duas a três sessões de halteres e um dia de descanso, que pode ser na sexta-feira, no domingo ou na segunda-feira, dependendo dos nossos objetivos. Uma sessão na água pode ser substituída por uma no remoergômetro. No inverno, às vezes, substituímos um treino na água por ciclismo no plano e em subidas ou esqui de longa distância. Escolhemos o ciclismo para os remadores pesados por causa do desgaste e o impacto de correr uma hora, ou mais, carregando um corpo de 95 kg a 105 kg. É divertido e eles gostam. Até participam em provas curtas de ciclismo. Utilizamos as formas alternativas de trabalho aeróbico quando os atletas estão com a musculatura muito dolorida, lesionados ou precisando de um refresco mental.

No início da fase básica, dedicamos os primeiros 14 dias a treinamentos com halteres, ciclismo, alguns jogos e remoergômetro. Só depois iniciamos o trabalho na água, que varia de 12 km a 20 km numa sessão. O máximo que chegamos a remar num dia são 20-24 km pela manhã e 16 km à tarde. Nunca passamos de 40 km num dia.

Lembre-se que, além de remar, em alguns dias, eles ainda levantam pesos. Nestes, diminuímos a quilometragem na água. Um esquema básico seria um dia com dois treinos de remo, o seguinte com uma sessão na água pela manhã e outra de halteres à tarde, depois novamente dois treinos de remo e assim por diante. Após os halteres, podemos remar 8 km leves, apenas para técnica e relaxamento.

-        Qual é o treinament

o com halteres?

Começamos com uma pequena corrida, como aquecimento, seguida de uma sessão de 60 min a 90 min com halteres. Trabalhamos força e resistência de força. Utilizamos o leg-press, remada deitada, agachamento, levantamentos, supino, abdominais e exercícios que chamo de complementares, como a rosca de pernas e saltos com bola de areia, e outros sem carga, como barras, lombar, etc...

No trabalho de força, executamos 4-5 séries com cargas variando entre 80% (7-8 repetições) e 90% (3-4 repetições). Às vezes, trabalhamos em forma de pirâmide chegando a 100%. Como resistência de força, fazemos entre 1.000 e 1.200 repetições no total, somando todos os exercícios, com carga de 70%. O número de execuções de cada exercício pode chegar a 250, com um pequeno intervalo a cada três repetições. São utilizados apenas quatro a seis exercícios.

-        Após um ciclo anual de treinos, de quanto tempo e como é o período de transição?

Normalmente, 3-4 semanas de descanso. Após um ano olímpico, muitos só retornam em janeiro. Especialmente com os bons resultados de Sydney, havia muitas festas, homenagens e celebrações...

A única coisa que recomendo aos atletas é que mantenham-se fisicamente ativos ao menos três vezes por semana. Na verdade, nem é preciso avisar, porque sendo pessoas atléticas, depois dos primeiros dias de descanso, surge a vontade de exercitar-se novamente.

Com o fim do quatro-sem, após Sydney, optei por montar o dois-sem. Sabendo que ia trocar de bordo, Cracknell retornou aos treinos após três semanas, para ter mais tempo de adaptação. Pinsent, após a terceira medalha olímpica de ouro, tinha muito a celebrar e necessitava de um descanso mental também. Só retornou no dia 3 de janeiro, fresco e renovado. Sei que outros técnicos preconizam apenas duas semanas de repouso, mas eu acredito que o atleta precisa de mais tempo para recobrar-se da fadiga mental. Ele deve voltar descansado em todos os aspectos.

  -        Quanto da metodologia e filosofia de treinamento da antiga Alemanha Oriental é possível empregar atualmente na Inglaterra?

Obviamente é um país com uma cultura diferente e não é posssível chegar lá e mudar tudo. É um processo de adaptação e respeito ao que já era feito anteriormente com sucesso, uma filosofia mista. Mas conseguimos unificar as formas de trabalho. Todos falam a mesma língua em termos de intensidades de treinamento, há literatura técnica especializada publicada e uma constante análise da técnica de remada.

Nos próximos dois anos, pretendemos implementar estudos biomecânicos da eficiência da remada no barco. Ainda não temos isto, porque não havia dinheiro. Um  técnico de remo não pode fazer tudo: telemetria, medição de lactato, análise biomecânica e ainda cuidar do treinamento. É preciso ter a ajuda de pessoal especializado.

-        Existe uma técnica nacional de remada?

Não exatamente, mas, através dos seminários de formação e atualização de técnicos, procuramos discutir e ensinar uma técnica padrão de remada. Caberá a cada técnico transmiti-la da sua forma, mas a base é comum.

-        Uma das novidades introduzidas com a sua chegada foi o uso mais frequente de avaliações fisiológicas, não é?

Sim. Quatro vezes ao ano fazemos medições completas de consumo de oxigênio, da capacidade de trabalho a 2 e a 4 mmol de lactato e determinamos o limiar de lactato, que são utilizadas para a elaboração do treino no barco. Damos ao atleta as faixas de trabalho a ser empregadas. Realizamos também testes no barco, como a medida de lactato, que nos permitem uma constante avaliação da carga de treinamento.

Com o tempo, conhecemos o perfil fisiológico do remador, o que nos permite um trabalho mais seguro. Numa regata importante, o atleta precisa estar 100% no dia certo. Não um dia antes ou depois. Portanto, é um processo de aprendizado constante que ajuda ao técnico empregar melhor as variáveis disponíveis. Muitos pensam que tudo resume-se apenas a remar uma distância com uma determinada voga.

Desde que chegaram, não vi o Pinsent e o Cracknell fazendo treinamentos intensivos, como tiros de 500 m e 1.000 m. Eles trabalharam muita técnica e repetições longas com voga 18 e pressão na água apenas, com alguns tiros curtos e largadas.

O repouso é tão importante quanto o treino duro. Não é possível escapar disto. Eles trabalharam forte antes da viagem. O que deveria ter sido feito já fizemos. Agora estamos na fase de supercompensação, apuro técnico, preparação mental para a regata e relaxação. É contraprodutivo misturar a tensão pré-competitiva com altas intensidades de treinamento. O bem-estar do repouso aumenta a confiança do atleta.

Para regatas como a Copa do Mundo e Henley, cessamos o trabalho com halteres uma semana antes da prova. Num Mundial ou Olimpíada, duas semanas antes.

-        O seu controle de treinamento utiliza também a frequência cardíaca?

Utilizamos, sim, mas associada à velocidade do barco. Sozinha, a FC não é totalmente confiável como um marcador de desempenho e controle de intensidade de treinamento. Em conjunto com a velocidade, e eu verifico isto diariamente, ela torna-se uma ferramenta tão útil quanto simples. As duas correlacionam-se muito bem. Portanto, o nosso treinamento concentra-se numa faixa entre 70% e 75% do tempo previsto por nós para vencer a medalha de ouro naquele ano.

A nossa filosofia de treinamento é muito simples: produzir o máximo de velocidade com o mínimo de lactato. Ou seja, produzir o máximo de velocidade aeróbica. Isto vem de uma sólida base aeróbica, que permite uma alta capacidade de trabalho com o lactato e a FC baixos, a base para atingir altas velocidades com mais eficiência.

-        Baseado nos níveis de lactato, quais são as faixas de trabalho empregadas?

Basicamente, 90% do trabalho é realizado com cargas abaixo de 4 mmol de lactato, mais precisamente entre 1,5 e 3,5 mmol. Os 10% restantes, incluindo as competições, ficam acima disto, utilizando vogas acima de 26.

A maior parte do trabalho aeróbico é realizado com vogas entre 18 e 20 remadas. No oito, chegamos até 22 remadas por minuto. Sempre com muita força na água. É assim que treinamos o coração para bombear mais economicamente e ao resto da musculatura para aplicar força máxima em cada remada. Não há como fugir disto. Podemos subir a voga de percurso até 41 rem/min. Mas há limites. Então, para ir mais rápido, só aplicando mais força. Voga alta, sozinha, é nada.

O treino em voga baixa também permite o aperfeiçoamento técnico, pois o remador tem tempo para pensar na sua remada, sentir o andamento do barco.

Como são treinados os barco de conjunto?

Sempre em barcos menores. No oito, por exemplo, quando estamos longe da regata, remamos juntos apenas uma vez por semana. O resto do trabalho é feito todo em barcos menores.

Em vez de encurtar a alavanca interna do remo, uma, no máximo duas vezes por semana usamos frenagem hidrodinâmica, colocando uma borracha amarrada ao redor do casco, na ré, para trabalhar força. Nunca mexemos na alavanca interna por causa de treinamento.

E o treinamento em altitude? Há muito debate sobre a sua real utilidade.

É uma opção especial que aprecio muito. Já o utilizávamos na Alemanha Oriental e continuo a fazê-lo desde que assumi na Inglaterra. Vamos para Silvretta, na Áustria, perto da fronteira com a Suíça, a 2.040 metros de altitude, e levamos quase toda a equipe. Deixamos o oito de fora na fase final de preparação, porque o lago é pequeno e não permite manobrar com facilidade.

Normalmente, vamos para lá duas semanas no inverno e três semanas na fase final da preparação. Com o quatro-sem, íamos três vezes ao ano. Descemos duas semanas antes da competição.

Há muito debate em torno da validade do treinamento em altitude. Mas eu tenho quase trinta anos de experiência com ele e fizemos muita pesquisa na Alemanha Oriental. É preciso conhecer os mecanismos, a forma adequada de treinar e os seus controles, porque a altitude permite cometer mais erros na metodologia aplicada do que ao nível do mar. Quando se está lá, sente-se a diferença. Não sei dizer se a melhora é de 1, 2 ou 3%. Há algo no ar que produz um efeito especial, mas conseguir utilizá-lo de forma adequada é o segredo. E isto eu sei.

-        Vocês utilizam treinamento pliométrico?

Não. Era uma forma de trabalho empregada no passado. Utilizamos saltos, sim, mas com bola de areia apenas. Podemos atingir os mesmos efeitos com outras atividades que não forçam tantos os joelhos.

-        E a flexibilidade, como é trabalhada?

Sempre antes e após os treinos. Virou um hábito para todos, desde os júniores. É um aspecto muito bem desenvolvido entre os nossos atletas.

-        Para finalizar, qual o seu perfil ideal de remador?

Gosto do tipo aplicado, ambicioso, matador. Mas, em barcos de conjunto, isto não é suficiente. É necessário haver também um líder. Em 1999, ficamos com a medalha de prata do Mundial no oito masculino porque faltou liderança no barco. Para Sydney, reformulamos a guarnição, colocamos um líder nela e trouxemos o ouro.

O CURRÍCULO DE JÜRGEN GROEBLER NA INGLATERRA

1992– dois-sem, campeão olímpico

1993– dois-sem, campeão mundial

1994– dois-sem, campeão mundial

1995– dois-sem, campeão mundial

1996– dois-sem, campeão olímpico

1997– quatro-sem, campeão mundial

1998– quatro-sem, campeão mundial

1999– quatro-sem, campeão mundial

2000– quatro-sem, campeão olímpico

2001– dois-sem, campeão mundial

             dois-com, campeão mundial

 Em 2001, ambos os títulos foram conquistados pela dupla Pinsent-Cracknell.

  (*) Professor de Educação Física e jornalista, reside na Califórnia, onde rema pelo Berkeley Rowing Club. Endereço: opefa@aol.com

 

 

ARTIGOS
MENU

Criada e desenvolvida por: Panayote Damilakos